
A caminhada: uma opção consciente para interromper tardes gastas entre o branco-e-preto de páginas, livros e palavras. Dar uma volta uniria a quebra das cores básicas (pela presença do verde-parque) com a adição do movimento (pela ausência da perna à parte).
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Naquele dia, o quinto da semana, passados os três espaços de entardecer e o do azul liberdade, viu-se pronta ao passeio matutino: levantou-se ainda deitada, vestiu-se, e saiu em ambiente translúcido.
Aos poucos, a manhã clareava e ela sentia-se viva pelo confronto da brisa gelada e sua pele ainda aquecida pelas horas de sono coberto. Após quinze minutos de caminhar pausado, chegara ao circuito verde: aquele paradoxo
in natura; paisagem artificialmente criada para trazer tranqüilidade o suficiente, para que os homens pudessem continuar vivendo sem ela; suportando
os cinzas dos concretos burocráticos.
Entrara, então, na ilusão; respirando o ar daquele jardim ampliado. E começara os passos mais acelerados, livres do trânsito das ruas comuns. Andava, observada, andava...as imagens passavam em movimento contínuo, quase que autônomo. “Afinal, sou eu, ou as imagens que andam?”. Aos poucos ia perdendo a consciência da caminhada, e suas pernas já se moviam por ação externa, já que inconsciente. Ao mesmo tempo, as árvores ganhavam atividade motriz e, quando menos esperava, trocavam de posição: ela pausava e o parque iniciava o movimento. Era encantador esse sentimento de diminuição, em que deixava de ser a personagem ativa, passando a observadora da caminhada vegetal.
Perdia-se na perda, e alivia-se pela ausência da consciência de seu papel central, de sua ação em mover-se por passos rápidos e coordenados. Queria ser aleatória!
Porém, nesse dia, sua perda deixara o sentido habitual, por se descobrir trivial. Ao buscar perde-se, enfim se encontrou! Entendeu que não era apenas em seus passeios matutinos que se reconfortava pela auto-desativação; mas vinha se deixando diminuir por todos os dias. Assim como gostava de esquecer seus passos, esquecia sua caminhada diária, deixando a vida ganhar automaticidade; e perdia-se em olhar a paisagem enquanto o chão lhe era invisível.
“Afinal, quem se movia: a vida, ou ela?”. E descobrira-se atônita por perder-se no passeio de viver. Aliviava-se com uma passividade imprópria, visto que a atividade exigia foco; doação! Viver não poderia ser verbo reproduzido, mas, sim, criado.
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Naquela manhã, voltara para casa: correndo!!
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