segunda-feira, 9 de novembro de 2009



[...] e a dificuldade dessa escrita está na feitura sem tinta.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Amor

Assaltaram-me.
Atingiram a parte meticulosamente resguardada.
Retiraram a sensação certa do porvir.

Secaram-me.
Absorveram o ar gradativamente inflado.
Sufocaram pelo árido do vazio.

Pararam-me.
Desaceleraram a música motriz.
Prenderam meus pés ao chão.

Silenciaram-me.
Calaram o tom.
Invadiram meu conceito de amor.

sábado, 4 de julho de 2009

"Completude"

Ele: – Não fale assim, que desafina. Suas notas não harmonizam com meu tom, acompanhe-me.

Ela: – Você é que descompassa. Seus passos fogem ao meu ritmo. Nesta dança, siga meu fluído.

(...)

Outrem: - Mal sabem eles, quão belo é a valsa cantada. Que as notas sem os passos são apenas sons. E que o movimento sem tom é apenas chão. Ah, ainda não compreenderam a beleza da voz entoada pela dança de passos cantados...
Unem-se de encantos e juntos são, em todo, o "espetáculo".

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Olimpo

Eram doze. Reuniam-se, disciplinadamente, uma vez por semana. Trocavam verbos, exclamações e pontos finais, por quatro horas seguidas. Ali estavam para pensar os problemas do mundo. Sabiam que possuiam o poder de agência, pois compunham um grupo especial, seleto pelo contato que tinham com os Deuses do Olimpo Intelectual. Haviam sido abençoados com a vida banhada a bons grados, com a única tarefa de se informarem o suficiente para solucionarem as dificuldades que enfrentavam os “menos agraciados” da humanidade.

Passavam, então, horas entre as mais sábias escrituras, exercitando suas belas mentes desenvolvidas. Portavam-se de forma altiva, falavam em língua erudita, e inflavam seus avessos pela admiração do eco. Ah, eram espertos, afinal compunham os porta-vozes da cognição cosmopolita!

Um dia, estavam em sala clara, envoltos a incensos, grande banquete e finas jóias, discutindo sobre um conflito entre as duas mais fortes tribos da humanidade. Lançavam frases sobre possíveis intervenções, antecipavam divisões entre homens e territórios, criavam leis coletivas, elaboravam complexas e elegantes teorias sobre as guerras ininterruptas, redigiam cartas universais, falavam em impérios, em equilíbrios, em poderes, em justo, em bárbaros.E, enquanto isso...

...os analfabetos, sentados em chão de terra, calçados com pele gasta, e mantidos por comida pouca, uniam-se em movimentos simples, transpunham fronteiras e uniam as tribos.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Caminhada


A caminhada: uma opção consciente para interromper tardes gastas entre o branco-e-preto de páginas, livros e palavras. Dar uma volta uniria a quebra das cores básicas (pela presença do verde-parque) com a adição do movimento (pela ausência da perna à parte).
...

Naquele dia, o quinto da semana, passados os três espaços de entardecer e o do azul liberdade, viu-se pronta ao passeio matutino: levantou-se ainda deitada, vestiu-se, e saiu em ambiente translúcido.
Aos poucos, a manhã clareava e ela sentia-se viva pelo confronto da brisa gelada e sua pele ainda aquecida pelas horas de sono coberto. Após quinze minutos de caminhar pausado, chegara ao circuito verde: aquele paradoxo in natura; paisagem artificialmente criada para trazer tranqüilidade o suficiente, para que os homens pudessem continuar vivendo sem ela; suportando os cinzas dos concretos burocráticos.
Entrara, então, na ilusão; respirando o ar daquele jardim ampliado. E começara os passos mais acelerados, livres do trânsito das ruas comuns. Andava, observada, andava...as imagens passavam em movimento contínuo, quase que autônomo. “Afinal, sou eu, ou as imagens que andam?”. Aos poucos ia perdendo a consciência da caminhada, e suas pernas já se moviam por ação externa, já que inconsciente. Ao mesmo tempo, as árvores ganhavam atividade motriz e, quando menos esperava, trocavam de posição: ela pausava e o parque iniciava o movimento. Era encantador esse sentimento de diminuição, em que deixava de ser a personagem ativa, passando a observadora da caminhada vegetal.
Perdia-se na perda, e alivia-se pela ausência da consciência de seu papel central, de sua ação em mover-se por passos rápidos e coordenados. Queria ser aleatória!
Porém, nesse dia, sua perda deixara o sentido habitual, por se descobrir trivial. Ao buscar perde-se, enfim se encontrou! Entendeu que não era apenas em seus passeios matutinos que se reconfortava pela auto-desativação; mas vinha se deixando diminuir por todos os dias. Assim como gostava de esquecer seus passos, esquecia sua caminhada diária, deixando a vida ganhar automaticidade; e perdia-se em olhar a paisagem enquanto o chão lhe era invisível.
“Afinal, quem se movia: a vida, ou ela?”. E descobrira-se atônita por perder-se no passeio de viver. Aliviava-se com uma passividade imprópria, visto que a atividade exigia foco; doação! Viver não poderia ser verbo reproduzido, mas, sim, criado.
...

Naquela manhã, voltara para casa: correndo!!

.

Carapuça

Qual motivo, mulher, deste seu caminhar tranqüilo? Dessa suposta linha reta? Se o que tens a oferecer é apenas tropeços! Como não percebes o descompasso em que dança, se ouves blues quando tocam samba?
Vives numa fraqueza encoberta por tecidos já gastos de um pierrot fantasiado. Vai, diz a mim como suportas essa aquarela facial impregnada de pinturas sobrepostas? Experimentastes esses múltiplos teus vazios dos “eus”, distraindo-se nessa loucura que criastes para enganar a verdade que faz de ti, tu.
Nunca pensas em olhastes de frente? Para entender as cores que te pintam sem pincel e os tons que te embalam sem que saias do lugar..
Ah, erraste muito ao incorporar a coragem dos lúcidos, que lutam contra um inimigo real, enquanto desmoronam frente ao que lhes é invisível aos olhos.
Sim, és covarde, pois não consegue encarar seu próprio mistério.

...e seu mistério, somos nós!

terça-feira, 26 de maio de 2009

hoje

...E acordou jovialmente velha! Era,mesmo sendo.

Sim, percebeu que só se vive o que se vê, logo, a mudança poderia ser feita pelas lentes: optou pelas velhas hastes e despertou esperançosamente míope.

Afinal, quem quer enxergar pinturas completas, quando há tantos belos borrões? Sim, escolheu o esboço.

Dê-lhe a borracha!